Positivismo Clássico e a Corrente Possibilista

A corrente possibilista, conforme destacado em diversas disciplinas no Curso de graduação em Geografia, surge como resposta às colocações deterministas de Ratzel. O mentor maior das idéias possibilistas foi o francês Paul Vidal de La Blache, que, utilizando conceitos e métodos do Positivismo clássico deu corpo a seu posicionamento teórico.

O momento histórico vivenciado por este geógrafo explica a origem de suas idéias. Conforme apontado por Moraes (2005), o desenvolvimento histórico francês no século XIX, a conjuntura da Terceira República e o conflito de interesses com a Alemanha serviram de suporte para a proliferação do Possibilismo Geográfico entre a intelectualidade francesa da época. Ainda segundo o referido autor as diversas disciplinas cientificas (inclusive a Geografia) tiveram papel fundamental durante as etapas de avanço, domínio e consolidação da sociedade burguesa na sociedade francesa, pois através das pretensas objetividade e neutralidade, legitimou autoritárias doutrinas da ordem.

Conforme pode ser visualizado na obra de Moraes (2005), a Geografia teve um tratamento privilegiado nesse processo de “neutralização da ciência com visando a manutenção ideológica”. Após o levante da Comuna de Paris e o início da Terceira República francesa, a disciplina geográfica foi colocada em todas as séries do ensino básico, além de serem criadas cátedras e institutos de Geografia.  Moraes descreve que “a guerra (franco-prussiana) havia colocado para a classe dominante francesa, a necessidade de pensar o espaço, de fazer uma Geografia que deslegitimasse a reflexão geográfica alemã e, ao mesmo tempo, fornecesse fundamentos para o expansionismo francês” (MORAES, 2005, p. 77).Nessa tarefa, La Blache realizou intenso diálogo com a obra de Ratzel e propôs as bases da corrente Possibilista, no entanto, apesar de entenderem e visualizarem diferentemente o espaço, as bases se fixaram no Positivismo Lógico. Tal fato pode ser comprovado pelo ideal de “neutralidade científica” do conhecimento geográfico.

Sabe-se, no entanto que de forma alguma este conhecimento pode ser dito neutro, pois de maneiras distintas serviram a interesses das classes dominantes, mas só o fato de veicular que o conhecimento cientifico deve ser neutro já se recai num domínio positivista. Conforme visualizado em LÖWY (1996) os positivistas clássicos, como Comte e Durkheim, consideram os preconceitos como verdades absolutas, incontestáveis e indiscutíveis, deixando com isso evidente seus preconceitos e prenoções estabelecidas.

Os fundamentos de Ratzel e La Blache, apesar de tenderem a objetivos distintos apresentam um fator em comum: o fundamento positivista, este advindo principalmente da aceitação de uma metodologia de pesquisa oriunda das ciências naturais. Vidal, segundo Moraes (2005) propõe o método empírico-indutivo, por meio deste, só se formulam juízos a partir dos dados da observação direta, ou seja, só é considerada verdade aquilo que pode ser comprovado com o uso dos sentidos. La Blache reconheceu a participação humana, porém mesmo com a influência da ciência histórica, prevaleceu-se o naturalismo em seu pensamento.  Isso é nítido na Geografia vidalina pelo fato dela “falar da população, de agrupamento, e nunca de sociedade” (Moraes, 2005, p. 84 ), prevalecendo aí a analise das relações Homem X Natureza e deixando de lado as relações entre os seres humanos (relações sociais).

A Geografia Tradicional francesa de La Blache acabou alastrando-se pelo mundo e tornou-se a Geografia oficial de quase todos os países até a década de 60. Como metodologia nessa linha de pensamento era delimitada  uma determinada área da superfície terrestre e passava-se a descrevê-la em sua totalidade, procurando abarcar os aspectos físicos, humanos e econômicos, resultando grandes descrições de áreas.

Com as transformações ocorridas no pós guerra, o conhecimento Geográfico tradicional se tornou inapto para lidar com a nova realidade em questão. A partir de agora a descrição por si mesma não tem importância, uma vez que não existe uma utilidade prática para tal descrição. O espaço tem de ser entendido em sua complexidade e não apenas descrito. Nesse sentido, a Geografia buscou uma nova identidade dentro do universo das ciências naturais, destacando-se a partir de então duas principais vertentes do conhecimento geográfico, o pragmatismo geográfico e a Geografia Crítica. Na ânsia de escapar das amarras do positivismo clássico o conhecimento geográfico passou a trilhas por caminhos diferentes, destacando-se no pós 1970, o Neokantismo, o Neopositivismo, a Fenomenologia e o materialismo Histórico.

Referências:

CAMARGO, José Carlos GODOY; Elesbão, Ivo. O problema do método nas ciências humanas: o caso da Geografia. In: Mercator – Revista de Geografia da UFC, ano 03, número 06, 2004. Acesso em 01 mai. 2011.

COSTA, Fábio Rodrigues da; ROCHA, Márcio Mendes. Geografia: Conceitos e paradigmas – apontamentos preliminares. Revista Geomae. V.1 N. 2, p 25-56, Jun-dez, 2010.

LÖWY, Michel. As Aventuras de Karl Marx Contra o Barão de Münchhausen. 5 ed. São Paulo: Cortez, 1996.

MORAES, A.C.R. Geografia: pequena história crítica, 20a ed. São Paulo, Annablume, 2005.

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