Afinal, o que é a Fenomenologia?*

       Segundo diversos autores essa corrente filosófica teria sido fundada pelo alemão Edmund Husserl com a obra  “As Investigações Lógicas” (1900/01), rompendo com as bases positivistas dominantes até então. Segundo LIMA (2008)  o termo  fenomenologia já havia sido usado anteriormente no século por Jean Lambert (século XVIII), e anos mais tarde por Kant e Hegel, ganhando no entanto a forma de movimento de pensamento  com Edmund Husserl no século XIX.

       Nesse período acreditava-se na existência de leis que regiam as ações humanas e naturais, buscando a tão sonhada “objetividade”. Ainda segundo LIMA (2008, p. 29) “não se percebia o mundo como um sistema de interconexões e nem se reconhecia a intersubjetividade das ações humanas.” No entanto,  com a  evolução das ciências humanas na segunda metade do século XIX a mecanicidade, atomicidade e outros tantos aprisionamentos metodológicos, foram substituídos por perspectivas funcionalistas  e organicistas, recebendo grande influencia da teoria de Darwin. Estes novos prismas vieram a propiciar a apreensão do mundo considerando a inter-relação entre fenômenos humanos e naturais. (LIMA, 2008) O resultado do conjunto destes e das mudanças na própria realidade vão começar a levantar questionamentos a respeito da eficiência da metodologia positivista nas pesquisas e explicação do mundo, sendo a questão da objetividade um dos mais “metralhados” pelos intelectuais opositores a esse modelo de pensamento.

Parque Tanguá- Curitiba/PR. Como a Geografia Crítica poderia ser trabalhada em um ambiente desse?

       Estão também entre os principais discípulos dessa corrente de pensamento são: Husserl, Heidegger, Ricoeur, Merleau-Ponty e Gadamer. Inicialmente teve grande importância no campo de estudos da Psicologia e posteriormente foi quebrando  barreiras rumo as outras ciências sociais entre elas a Geografia. Segundo Garnica (1997), com a busca do conhecimento das coisas a partir da consciência  essa corrente se aproxima bastante da Filosofia, pois de acordo com essa perspectiva a ciência começa a partir do próprio conhecimento que o sujeito tem do objeto (da aparência).  Talvez por esse motivo, Elenor Kunz (2000)  afirma que essa perspectiva buscava resgatar um pouco da filosofia grega com a dicotomia  entre opinião e verdade. Ainda segundo o mesmo autor a fenomenologia parte do conceito de que “o ser humano possui conhecimentos que são anteriores à tomada de consciência filosófica de mundo.” (Kunz, 2000, p. III)

       Segundo Kunz (2000) o problema da Fenomenologia é justamente o fato de que não é possível apreender “o todo” a partir da aparência do objeto pesquisado. Segundo ele, isto ocorre justamente por não termos a percepção do todo, mas sim em aspectos do todo e, indo além Kunz (2000) indaga se existe possibilidade de alcançar a elaboração de conceitos livres de pré conceitos e julgamentos do pesquisador.

      Para escapar justamente destes questionamentos Husser criou o conceito de intencionalidade [“consciência é sempre consciência de alguma coisa”]. Segundo esse conceito existe uma relação de vinculo entre a consciência e o mundo não pertencendo nem ao pesquisador nem à coisa ou objeto pesquisado. Sendo assim, segundo Kunz (2000) afirma que os dados da consciência somente podem ser descritos, não sendo suscetíveis nem à análise, nem pelo esclarecimento.

       Ficando preso neste mundo de experiências, surge como metodologia da filosofia fenomenológica “a redução fenomenológica” que foi um tema criado e desenvolido inicialmente por Husserl e posteriormente, trabalhado em peso por M. Ponty que defendeu o seu uso para a obtenção de uma maneira de ver e perceber o mundo, conforme LIMA (2008) ela consistiria em suspender todos os preconceitos, valores, teorias científicas e crenças pré-existentes se reduzindo a descrição do fenômeno (entendido como verdade).

       Ainda esse autor reitera um observação bastante interessante alguns parágrafos além afirmando que pelo fato da fenomenologia ser uma ciência descritiva da vivência a temos como uma contradição do Positivismo: “fatos somente são obtidos por abstração. Fenômenos são vividos” (LIMA, 2008, p.30).

            Entendendo por esse prisma, interpretamos que os adeptos desse modelo correm o risco de, mesmo que indiretamente ser influenciado por seus valores, crenças e ideologias na análise do fenômeno já que a descrição acaba por ser alimentada pela vivência do pesquisador. Ponto esse discutido por Merleau-Ponty (1998) apud LIMA (2008) ao levantar a discussão de uma Fenomenologia Existencialista que se baseia na percepção de que o homem e o meio convivem em uma dialética onde não se pode afirmar quem age sobre quem. Segundo Albuquerque e Lage (2005) o resultado da utilização da Fenomenologia recairia no fato de que a mesma libertaria o sujeito.

           De posse de todas essas premissas, tecemos então nossa análise partindo da análise de que a fenomenologia tem interesse na descrição dos dados imediatos por meio da dialética consciência –  mundo, percebendo o sujeito como parte fundamental nesse processo pelo uso de sua consciência (percepção, sensibilidade e intuição). Na próxima semana procuraremos abordar como a Filosofia Fenomenológica influenciou os estudos geográficos. Tem algo que deixamos de comentar? Você discorda ou concorda com algo? Dê sua opinião!

* Adaptado de trabalho escrito por: Maria A. de Araujo, Maurício E. Fernandes e Jonas H. M. de Lima no segundo semestre de 2011.

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