O que faz um Geógrafo?

Durante essa semana na disciplina de estágio, o professor falou sobre o que faz um Geógrafo. Posso te garantir que tem muita cadeira de trabalho que poderia estar sendo ocupada por esse tipo de profissional. Como bem colocou a pesquisadora Joildes Brasil existe “uma Geografia sem Geógrafos”, pois muitas das coisas que os geógrafos poderiam estar fazendo amparados pela legislação, estão sendo feitas por técnicos, agrônomos, engenheiros, arquitetos…..

Afinal, o que faz (ou pode fazer) um Geógrafo?

A profissão do Geógrafo é regulamentada em legislação através da lei nº 6.664, de 26 de junho de 1979. Posteriormente houve algumas alterações com a lei nº 7.399, de 4 de novembro de 1985 (altera a nº 6.664), as resoluções do CREA e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB.

Então vamos à lei!

Segundo o Artigo 3º da Lei nº 6.664, de 26 de junho de 1979:

É da competência do Geógrafo o exercício das seguintes atividades e funções a cargo da União, dos Estados, dos Territórios e dos Municípios, das entidades autárquicas ou de economia mista e particulares:

I – reconhecimentos, levantamentos, estudos e pesquisas de caráter físico-geográfico, biogeográfico, antropogeográfico e geoeconômico e as realizadas nos campos gerais e especiais da Geografia, que se fizerem necessárias:

a) na delimitação e caracterização de regiões e sub-regiões geográficas naturais e zonas geoeconômicas, para fins de planejamento e organização físico-espacial;

b) no equacionamento e solução, em escala nacional, regional ou local, de problemas atinentes aos recursos naturais do País;

c) na interpretação das condições hidrológicas das bacias fluviais;

d) no zoneamento geo-humano, com vistas aos planejamentos geral e regional;

e) na pesquisa de mercado e intercâmbio comercial em escala regional e inter-regional;

f) na caracterização ecológica e etológica da paisagem geográfica e problemas conexos;

g) na política de povoamento, migração interna, imigração e colonização de regiões novas ou de revalorização de regiões de velho povoamento;

h) no estudo físico-cultural dos setores geoeconômicos destinados ao planejamento da produção;

i) na estruturação ou reestruturação dos sistemas de circulação;

j) no estudo e planejamento das bases físicas e geoeconômicas dos núcleos urbanos e rurais;

l) no aproveitamento, desenvolvimento e preservação dos recursos naturais;

m) no levantamento e mapeamento destinados à solução dos problemas regionais;

n) na divisão administrativa da União, dos Estados, dos Territórios e dos Municípios.

 II – a organização de congressos, comissões, seminários, simpósios e outros tipos de reuniões, destinados ao estudo e à divulgação da Geografia.

A lei nº 7.399, de 4 de novembro de 1985  alterou a definição dos profissionais que poderiam exercer a função de geógrafo. Na legislação de 1979:

Art. 2º. O exercício da profissão de Geógrafo somente será permitido:
I – aos Geógrafos e aos bacharéis em Geografia e em Geografia e História, formados pelas Faculdades de Filosofia, Filosofia, Ciências e Letras e pelos Institutos de Geociências das Universidades oficiais ou oficialmente reconhecidas;
II – (Vetado);
III – aos portadores de diploma de Geógrafo, expedido por estabelecimentos estrangeiros similares de ensino superior, após revalidação no Brasil.

Com a lei nº 7.399, de 4 de novembro de 1985 acrescentou-se as seguintes condições:

IV – aos licenciados em Geografia e em Geografia e História, diplomados em estabelecimentos de ensino superior oficial ou reconhecido que, na data da publicação desta Lei, estejam:
a) com contrato de trabalho como Geógrafo em órgão da administração direta ou indireta ou em entidade privada;
b) exercendo a docência universitária;

V – aos portadores de títulos de Mestre e Doutor em Geografia, expedidos por Universidades oficiais ou reconhecidas;

VI – a todos aqueles que, na data da publicação desta Lei, estejam comprovadamente exercendo, há cinco anos ou mais, atividades profissionais de Geógrafo.

Por outro lado…

Segundo o professor Marcelo Acha, que colaborou por meio de um comentário no Linkedin com a correção  e melhoria de informações deste texto, esta lei acabou abrindo algumas brechas. Ela “permite o exercício da atividade de Geógrafo a profissionais que,  embora com outra graduação mas com mestrado E doutorado em Geografia possam também, obter registro junto ao Sistema CONFEA/CREA.” (grifo nosso)

Ainda, de acordo com o professor, a formação deficiente dos Geógrafos em grande parte das instituições educacionais, aliada ao fato das atribuições a esse profissional não serem exclusivas a ele são outros grandes entraves ao seu ingresso no mercado de trabalho.

Referências

Lei Nº 7.399, de 4 de novembro de 1985.

Lei Nº 6.664, de 26 de junho de 1979.

A Legislação que Regulamenta a Profissão de Geógrafo. AGB, 2010.

Guia de carreiras: geografia  (Blog do Crea Jr)

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18 comentários sobre “O que faz um Geógrafo?

  1. Saudações Geográficas …

    Queria agradecer a citação do meu texto (Uma Geografia Sem Geógrafos). Sei que foram apenas breves considerações que tinha a partir da minha visão ainda precoce, no inicio da minha graduação em geografia (a mais ou menos 5 anos), mas algumas indagações dauee texto ainda são pertinentes hoje. Queria também parabenizar a iniciativa do blog…. temos que usar as técnicas oferecidas pela Era da Informação a favor da evolução do pensamento geográfico…

    Até mais… visitarei seu blog mais vezes.

    • Saudações…
      Joildes Brasil, sinceramente quando vi seu comentário fiquei sem resposta. Pra mim é uma honra e, ao mesmo tempo uma grande responsabilidade, ter recebido o comentário vindo de você. Assisti também seu vídeo no Blog do Murilo Cardoso sobre o código florestal e pude perceber a qualidade de seu trabalho.
      Até mais futura mestre em Geografia. Será sempre muito bem vinda neste espaço.

  2. gostei muito do artigo, e a mais pura realidade apartir de hoje serei o visitante n° 1…
    wenderson
    aluno do curso de geografia(licenciatura)
    da Universidade Federal do Acre

    • Wenderson, muito obrigado pela sua visita. Espero poder corresponder às suas expectativas, compartilhado um pouco do que estou aprendendo durante o curso de Geografia aqui no Paraná e aprendendo com vocês que são de outros lugares do país. Abç.

  3. Pingback: #geógrafo Como conseguir seu registro no CREA? « Geografia

  4. Eu não entendi o que mudou com a lei nº 7.399, de 4 de novembro de 1985. No caso um licenciado em geografia que possua mestrado ou doutorado em Geografia podem obter o CREA? Agradeço desde já a resposta, e parabéns pelo Post. Temos que valorizar mais a carreira do Geógrafo.

      • Então Jonas…Li seu texto, achei interessante e acompanho a discussão no LinkedIn, mas não deixo de ter uma pulga atrás da orelha sobre esse tema quando leio o texto da lei.

        IV – aos licenciados em Geografia e em Geografia e História, diplomados em estabelecimentos de ensino superior oficial ou reconhecido que, NA DATA DE PUBLICAÇÃO DESSA LEI, estejam:
        a) com contrato de trabalho como Geógrafo em órgão da administração direta ou indireta ou em entidade privada;
        b) exercendo a docência universitária;

        V – aos portadores de títulos de Mestre e Doutor em Geografia, expedidos por Universidades oficiais ou reconhecidas;

        VI – a todos aqueles que, na data da publicação desta Lei, estejam comprovadamente exercendo, há cinco anos ou mais, atividades profissionais de Geógrafo.

        Quando vejo isso entendo que aqueles que estavam dentro dessas condições ATÉ A DATA DE PUBLICAÇÃO DA LEI e não dali pra frente. Assim, todos aqueles que tentassem esse processo daí pra frente estariam impossibilitados, por conta disso. É normal em leis, para que não se prive o direito de que estava exercendo a profissão legalmente até então, se abrir essas exceções, mas penso que a isso talvez tenha criado uma confusão em relação a isso. Alguém tem um entendimento diferente disso?

  5. Nossa, a pura verdade. Assim, como eu conheço muitos geógrafos que não exercem a profissão, por falta de espaço no mercado de trabalho e falta de uma representação efetiva da classe. A AGB Recife, que tinha uma sala no departamento que eu estudava, só vivia fechada e o CREA nem sequer cita o Geógrafo commo profissional. O jeito é correr para concursos públicos ou trabalhar em áreas que não condizem com a formação. COnheci um professor de história que dava aula de geografia. Disse a ele” Você está tomando lugar de outro, enquanto tenho amigos licenciados desempregados você dá aula no lugar de um deles. Você sabe ensinar geografia?” Falei mesmo. Mas, na briga pelos empregos o caráter é deixado de lado.

  6. Acredito que atualmente a lei do geógrafo não condiz com a realidade do profissional. Convenhamos que as próprias instituições de ensino não dão suporte teórico metodológico e, principalmente, o dito profissional, para o geógrafo gerar estudos conforme a lei exige. Então será que convém esta abordagem “Geografia sem geógrafos”? A realidade é outra. Não estamos mais focados nos estudos clássicos da paisagem.
    Exige-se revisão da lei e novas diretrizes que acompanham o desenvolvimento da ciência (que está bem distante nesta lei fundamentada nos estudos clássicos da Geografia).

  7. Me sinto no direito em opinar neste texto por diversas razões, mas a principal é por ser Geógrafo.
    Eu estudei Geografia por que desde cedo tive familiaridade por ter meu pai, cartógrafo que logo em minha adolescência montou a empresa em nossa casa e isto serviu de matriz cognitiva e por conseguinte profissional. Após formado trabalhei tanto na docência como na área técnica, porém devido a outras questões da vida resolvi partir para um lado de outros gostos, tais como a tecnologia, games, quadrinhos e etc. Porém, toda a minha base teórica veio da geografia, mesmo em situações como gestão de endomarketing, design instrucional e game design. Também sempre deixo caro, que apesar de fazer pós-graduação em cinema, sempre acentuo o fato de vir da área da Geografia.

    Tive a oportunidade de conviver com o Professor Jurandyr Ross, que afirmou certa vez: ” O mercado não é do Geografo, do Engenheiro ou do Arquiteto, o mercado é de quem é capaz de realizar o serviço de forma mais competente”.

    Quando resolvi ampliar meus horizontes, indo cursar disciplinas em mais diversos programas, descobri que arquitetos, psicólogos e artistas não só respeitavam os geógrafos como reclavam da falta de profissionais com determinado tipo de perfil.

    Acredito que pude aparecer na cena do Game Design por que falava coisas além dos outros, com outro enfoque, usando Geossistema junto com lógicas de arquitetura de inteligência artificial, aprofundamento de conceitos espaciais e semióticos de roteiro, lógica procedural em modelagem espacial e principalmente ensino.

    Nunca me esqueço quando disse na entrevista para trabalhar na Cidade do Conhecimento para vaga de gestor de comunidades virtuais que era geógrafo e o Professor Gilson Schwartz, hoje meu orinetador, disse: Ótimo, com sua formação a visão espacial e estratégica vai dar um bom trabalho.

    A questão é que, em minha modesta opinião, leis como a do CREA podem garantir direitos, mas nem sempre oportunidades. Existem diversos campos surgindo com novos paradigmas e isto envolve o espaço. Termos como RFID, Gamificação, interface cultural, mundos virtuais, gestor de estratégias, web 3.0 são correntes fontes de oportunidades e demandam uma “corrida do ouro”, pergunto: as faculdades ensinam isso? Logo aqueles que quiserem, devem buscar por si próprios. Afinal diploma tem prazo de validade, que é a data de quando nos formamos.
    Ocupar uma vaga de emprego exige estar apto a ela, ter portfólio que garanta a vaga para si. Certa vez fiz uma constatação, que o curso que eu fiz não me deixava apto a estar em um eixo de trabalho “Paulista-Itaim-Berrini”, tão logo terminei a expressão, foi interpelado por um jovem que dizia que retrucou dizendo que a faculdade não precisava dar essa formação, enfim hoje ele está fora do país fazendo uma pós-graduação, mas e seus amigos de turma que não tiveram esta oportunidade? Será que compartilha desta opinião?

    Temos sites como o Google Maps, agora com o Google Treasure, Aplicativos gamificados que utilizam mapas e eu pergunto, quantos geógrafos estão envolvidos com isso. Na área de games mesmo eu conheço no máximo uns 3 de um universo de milhares. Recentemente em uma mesa redonda em um evento pop, a galera que subiu lá para falar mal sabia compreender o que era um mapa, mas estavam fazendo seus trabalhos do ponto de vista da publicidade e bem. Um geógrafo qualificado poderia fazer tão bem quanto ou até mesmo melhor.

    Acredito que cada vez mais as oportunidades abrirão, pois à guiza de outros países, esse lance de dar funções de acordo com o diploma não funciona e sim de acordo com a aptidão de resolução de problemas. Logo, aqueles que quiserem estar inseridos nisso, com vontade de capacidade/capacitação terão sua devida chance.

    Acredito na Geografia, acredito nos Geógrafos, mas não acredito em instituições corporativas, mas é minha visão, enquanto instituição eu acredito na formação, Incubadoras, acelaradoras, venture capital, polos tecnológicos como o Porto Digital de Recife, synapseshub.com, entre outros. Onde estão os Geógrafos e estudantes de geografia, em eventos como, concursos e planos de start up´s, Jam´s e Hacktoons. Sempre que estou na Campus Party e vejo as mesas de aplicativos cartografáveis e nunca vejo um Geógrafo acho uma pena.

    Enfim, esta é minha opinião, minha visão, algo que vivi à minha maneira, sou grato à minha instituição de ensino e à minha formação. A minha faculdade fez a parte dela e eu fiz a minha. Com certeza, tudo que eu faço tenho um respaldo muito bem fundamentado pela Geografia e faço sempre questão de declarar: eu sou geógrafo. Mesmo sabendo que vem aquela careta que diz: “nossa, nada ver””. Alias, os próprios geógrafos quando sabem minhas atividades dizem: “nossa, nada haver”. Porém, em ambos os casos eu digo:”por eu ver relações que outros não vêm, ao invés de discrepâncias eu vejo oportunidades .”

  8. Parabens!!! pela brilhante síntese e reflexão. Para termos uma visão clara do papel e da relevância de nossa profissão, precisamos com propriedade tercermos os objetivos fundantes de nossas ações. A partir deste destaque, em situação situada, falarmos em desenvolvimento profissional. Afinal a identidade ‘geográfo’ emerge de toda uma temporalidade historica e conceitual que mereece ser valorizada. Somos peça chave no tabulero global, portanto somos estratégicos.

    • Oi Alex, acredito que não podemos misturar as coisas. Geógrafo vinculado ao CREA é Geógrafo. O que varia são as aptidões do profissional de acordo com as disciplinas cursadas no ensino superior.

      As informações abaixo foram retiradas do site da AGB:

      Segundo o CREA, a legislação vigente e o currículo de algumas faculdades e universidades habilitam o geógrafo a atuar nas seguintes áreas:

      a) Ambiental
      • Elaboração de Estudos e Relatórios de Impacto Ambiental (EIAs e RIMAs);
      • Avaliações, pareceres, laudos técnicos, perícias e gerenciamento de recursos naturais;
      • Plano e Relatório de Controle Ambiental (PCA e RCA);
      • Monitoramento Ambiental

      b) Planejamento
      • Planos diretores urbanos, rurais e regionais;
      • Ordenamento territorial;
      • Elaboração e gerenciamento de Cadastros Rurais e Urbanos;
      • Implantação e gerenciamento de Sistemas de Informações Geográficas (SIG);
      • Estruturação e reestruturação dos sistemas de circulação de pessoas, bens e serviços;
      • Pesquisa de mercado e intercâmbio regional e inter-regional;
      • Delimitação e caracterização de regiões para planejamento;
      • Estudos populacionais e geoeconômicos.

      c) Cartografia
      • Mapeamento Básico;
      • Mapeamento Temático;
      • Cartografia Urbana;
      • Delimitação do espaço territorial municipal, distrital, regional;
      • Cartas de declividade e perfil de relevo;
      • Cálculo de áreas;
      • Transformação e cálculo de escalas;
      • Locação de pontos ou áreas por coordenadas geográficas;
      • Interpretação de fotografias aéreas e imagens de satélite;
      • Geoprocessamento e cartografia digital.

      d) Hidrografia
      • Delimitação e Plano de Manejo de Bacias Hidrográficas;
      • Avaliação e estudo do potencial de recursos hídricos;
      • Controle de escoamento, erosão e assoreamento dos cursos d’água.

      e) Meio Físico
      • Caracterização do Meio Físico;
      • Planos de recuperação de áreas degradadas;
      • Estudos e pesquisas geomorfológicas;
      • Climatologia;
      • Cálculo de energia do relevo.

      f) Turismo
      • Levantamento do potencial turístico;
      • Projetos e serviços de turismo ecológico (identificação de trilhas);
      • Gerenciamento de pólos turísticos.
      Abraço!

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